Como a ketamina salvou minha vida

Jacki Applebau | Vice

Por Equipe Biomente
08/11/2019 · Depressão

Eu vou morrer.

Há meses essas palavras se repetiam dentro de minha cabeça. Eu estava deprimida, anoréxica e viciada em drogas. Já havia tentado de tudo para aliviar minha dor, de terapia a tratamento com choques, mas nada parecia funcionar. Prometi a mim mesma que tentaria uma última coisa antes de pular de um prédio: infusões de ketamina.

Você deve ter notado, pelo título do artigo, que o método funcionou.

A pergunta natural é: como uma substância pode ter "salvado" a vida de uma dependente química de 20 anos de idade? Injetar uma droga recreativa não pioraria, em teoria, o problema?

Antes de tudo, juro que não estou sob o efeito de nenhuma substância psicotrópica enquanto escrevo esse relato.

Alguns meses antes de passar pelo tratamento, eu havia lido um artigo sobre o uso de infusões de ketamina no tratamento de depressão, cheio de palavras-chave como "cura" e "remédio milagroso". Eu estava louca por um milagre que curasse todas minhas patologias e de cara lembrei como havia amado cheirar ketamina com um grupo de garotos alemães numa linda praia no Camboja.

Em seguida comecei a procurar outras informações sobre o tratamento. Nos anos 70, a ketamina foi aprovada nos EUA como um anestésico de curto prazo utilizado em humanos e animais. Graças à natureza dissociativa (e portanto viciante) da substância, ela foi classificada como uma Substância Controlada Tipo III em 1999. Mas a ketamina tem sido utilizada extra-oficialmente como um remédio para depressão há quase uma década.

A ketamina funciona de forma diferente dos antidepressivos comuns, como os ISRSs (inibidores seletivos da recaptação da serotonina) e os ISRSNs (inibidores seletivos da recaptação da serotonina e da noradrenalina). Esses compostos bloqueiam a absorção de dois neurotransmissores, a serotonina e a noradrenalina, ajustando os níveis dessas substâncias e, assim, regulam o humor do paciente.

Em vez de tentar consertar um desequilíbrio químico, a ketamina muda a própria estrutura do cérebro. Os cientistas ainda estão estudando o efeito da droga, mas algumas pesquisas indicam que o uso dela aciona a liberação de outro neurotransmissor, o glutamato, que por sua vez estimula a regeneração de redes neurais danificadas pelo stress ou pela depressão.

A teoria é que, ao afetar o glutamato, o neurotransmissor mais abundante do cérebro, a ketamina vai direto na raiz do problema. Isso pode explicar por que ela funciona tão rápido — alguns pacientes apresentam resultados positivos em apenas algumas horas, diferentemente das semanas ou meses necessários para que um antidepressivo faça efeito (sem contar os diversos efeitos colaterais desses remédios).

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Fonte: Vice