O que há por trás do estigma do tratamento com eletrochoque, eficaz contra depressão grave

Alex Riley | BBC Future

Por Equipe Biomente
29/07/2018 · ECT

Há 80 anos, médicos da Universidade La Sapienza, em Roma, na Itália, aplicaram uma corrente elétrica de 100 volts no cérebro de um homem de 39 anos. Ele tinha sido encontrado pela guarda municipal uma semana antes, vagando pelas ruas e murmurando palavras que ninguém conseguia entender.

"Ele estava apático, vivendo passivamente, como uma árvore que não dá frutos", escreveu Ferdinando Accornero, então um jovem psiquiatra da universidade.

Desorientado, o paciente não identificado foi diagnosticado com esquizofrenia severa e avançada.

"A doença teve um prognóstico ruim", acrescentou Accornero. "Concluímos que estávamos lidando com uma mente completamente desestruturada, tínhamos pouca esperança, até mesmo de uma recuperação parcial."

Em poucas semanas, no entanto, o homem misterioso voltaria a conversar, a morar em sua própria casa e a dormir ao lado da esposa. Também retornaria ao trabalho como engenheiro, em Milão.

Ele foi o primeiro paciente a receber o tratamento que mais tarde seria conhecido como eletrochoque ou eletroconvulsoterapia (ECT). Embora os sintomas tenham voltado em poucos meses, ele e os médicos sabiam que era possível tratar.

Atualmente, a ECT é vista com frequência como uma ferramenta de tortura cruel, prejudicial ao cérebro, sem espaço na medicina moderna. Mas ainda é o tratamento mais eficaz para um pequeno grupo de doenças mentais.

Apesar de ninguém saber realmente como funciona, a terapia de choque pode ajudar, em mais de 80% dos casos, a eliminar os piores sintomas da mania, da catatonia (condição mental que deixa os pacientes retraídos, mudos e apáticos) ou da depressão grave, que pode levar ao suicídio.

A ECT está longe de ser perfeita. Não é capaz de curar um paciente, por exemplo, e precisa ser repetida com intervalos de poucos meses para evitar que os sintomas originais voltem. Sem contar que há risco de perda de memória (geralmente temporária), de dores de cabeça e no maxilar.

Mas será que os efeitos colaterais justificam o estigma contínuo associado ao tratamento? A quimioterapia, por exemplo, vem acompanhada de náuseas e outras reações adversas, além de muitas vezes não ser bem-sucedida. No entanto, continua sendo a parte mais importante nos tratamentos contra o câncer.

Para muitas pessoas, a ECT poderia ser a salvação. O suicídio (frequentemente associado a transtornos mentais) é a quarta maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil – e a segunda a nível mundial. A depressão, por sua vez, é uma das doenças mais incapacitantes globalmente, consumindo os anos mais saudáveis de nossas vidas coletivas.

Mas, afinal, o que é verdade sobre a eletroconvulsoterapia?

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Fonte: BBC News